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Vodou é um termo que denomina um conjunto de práticas afro-diaspóricas típicas da região caribenha. Sem dúvidas, o Vodou haitiano é a religiosidade mais debatida deste grupo, mas há também o Vodou dominicano, Vodou cubano e o Voodoo norte-americano. O Vodou das Américas não deve ser confundindo com o Vodum da região do Benim, África.
Vodou haitiano
O Vodou haitiano se trata de uma coleção de práticas religiosas diversas, mas que contém uma estrutura caracterizante comum, que ocorrem e que se formaram no Haiti. Em linhas gerais, o Vodou haitiano é uma religião tributária das espiritualidades africanas, principalmente dos povos do tronco-linguístico bantu, dos povos iorubás e dos falante de gbe (que habitavam, dentre outras regiões, o antigo Daomé) e também do cristianismo europeu, da religiosidade dos povos originários caribenhos e de correntes místicas e esotéricas européias, como a Maçonaria.
Apesar de exibir uma grande variação em suas práticas e crenças, de maneira mais geral, o Vodou se preocupa com a interação entre as pessoas, no mundo material, e os espíritos, no mundo espiritual ou invisível. Há a crença em um deus criador, chamado de Bondye e em diversas categorias de espíritos intermediários como Lwas e os Ancestrais.
Sem dúvidas, os Lwas são a categoria de espíritos mais popular no Vodou haitiano. Os Lwas são espíritos criados por Bondye ou ainda ancestrais divinizados (em alguns casos) aos quais a maioria das petições e cerimônias do Vodou são direcionadas. No Vodou Asogwe, modalidade de Vodou haitiano, popular no Sul do Haiti, os Lwas são divididos, usualmente, em dois grandes grupos: o grupo Rada se refere a espíritos mais calmos; e o grupo Petwo, a espíritos mais agitados – se bem que tal classificação é bem generalista e há exceções. Há ainda um terceiro grupo de Lwas chamados de Gede, que se referem a espíritos cujo o tema são a morte e a sexualidade e que incluem em suas fileiras, almas de pessoas falecidas.
No Norte, onde outros tipos de Vodou são praticados (como o Vodou Deka ou Makout ou Kwa-Kwa, embora existam autores que determinam que ocorra diferença entre estes tipos de Vodou, normalmente essas nomenclaturas são utilizadas indistintamente para falar de um Vodou mais familiar e rural, sem as estruturas típicas do Asogwe) e também em alguns templo (hounfour ou ounfó) no Sul, considera-se que os Lwas são divididos no número mítico de 21 Nações (grupos de espíritos agrupados por herança étnica). Se bem que existem templos específicos no Norte do Haiti famosos por trabalharem com Lwas (Lwa yo, no Crioulo haitiano, seria a forma correta do plural, mas optamos por usar Lwas para facilitar o leitor) de apenas uma nação como Congo ou Nagô, por exemplo.
Sevi Lwa
No Vodou haitiano, sua prática é comumente chamada pelos haitianos de sevi Lwa, o que se traduziria como “Servir Lwa”. O serviço aos Lwas é o objeto principal das cerimônias do Vodou, que são geralmente realizadas em templos, chamados de Hounfour ou Ounfó, no Sul e, muitas vezes, chamados de Lakou no Norte. Lakou, entretanto, é um termo mais amplo que abarca uma unidade habitacional típica do campo haitiano e também pode se referir ao terreno no qual um templo está localizado. Além disso, muitas cerimônias de Vodou são realizadas na natureza, em locais abertos como clareiras ou em rios e cachoeiras.
No Vodou Asogwe, um hounfor contém basicamente tambores (que diferem no rito Rada e no rito Petwo), imagens de santos católicos, com os quais diversos Lwas são sincretizados e um poste central, chamado de Potomitan, que serve como um eixo de ligação entre os mundos visível e invisível. Ainda, existirão altares para os Lwas, sendo que os altares dos grupos Rada e Petwo sempre são separados. Pode haver um terceiro altar para os Gede, mas é possível que estejam também junto dos Lwas Petwo.
Uma típica cerimônia de Vodou Asogwe se inicia com a Priye Ginen, uma longa oração que começa com louvores a Bondye, com orações católicas e que depois passa a saudar os diversos Lwas e nações. Depois disso, os sacerdotes (Manbo, no feminino, e Ougan ou Oungan ou ainda Houngan, no masculino) seguem determinados passos, oferecendo libações, oferendas e sacrifícios animais para os Lwas enquanto chacoalham seu ason, o chocalho ritualístico que marca o ofício sacerdotal na tradição Asogwe (Em alguns tempos, utiliza-se o ason apenas para os Lwas Rada, sendo reservado aos Petwo um chocalho mais simples, chamado de Kwa-Kwa). As possessões – termo típico do Vodou – são comuns e diversos Lwas podem aparecer e incorporar nos sacerdotes e demais presentes.
Lwas
Em verdade, o número e variedade de Lwas existente não é catalogável. Entretanto, os Lwas mais famosos dos grupos Rada, Petwo e Gede são:
Revolução Haitiana e Vodou
Contam as histórias que em 14 de Agosto de 1791, escravizados, pretos livres e maroons, fugidos e revoltosos, se encontraram na localidade de Bwa Kaiyman para um encontro político e religioso que ditaria os rumos da então colônia francesa de São Domingos. Embora não existam registros históricos assertivos a cerca dos detalhes de tal cerimônia para que possamos afirmar exatamente como a supracitada celebração teria ocorrido, ela foi incorporada ao imaginário haitiano e ao mito. A dita cerimônia, chamada de Bwa Kayiman, teria sido um encontro para dar um basto na exploração dos escravizados e pela tomada da terra. Junto disso, teria ocorrido uma cerimônia de Vodou comandada pelo ougan Duty Boukman e pela manbo Cecile Fatiman, que teriam chamado Ezili Dantor e Ogou e sacrificado um porco preto aos Lwas. Seja como for, logo depois dessa data, estourou uma revolução muito violenta em São Domingos que culminaria com a independência daquela terra que passou a se chamar Haiti, em 1804. Por conta disso, a cerimônia de Bwa Kayiman é tida como o estopim da revolução e liga o Vodou à própria construção nacional haitiana.
Bonecas Vodou e outros estereótipos
As práticas do Vodou haitiano são comumente confundidas com práticas típicas do Hoodoo, como o uso de bonecos, pós, óleos e demais. Entretanto, apesar de haver uma relação entre o Hoodoo, tipo de magia popular cuja gênese se encontra no Sul dos Estados Unidos da América, e do Voodoo da Louisiana, essas práticas não são encontradas no Vodou haitiano.
O uso de bonecos para representar uma pessoa e o ato de se causar dano à mesma através da inserção de agulhas, por exemplo, prática associada ao Vodou por trabalhos de ficção e pelo terror causado pela possibilidade de envenenamento por meio de bonecas importadas do Haiti nos anos de 1950, nos Estados Unidos, não encontra paralelo na realidade cotidiana de um praticante de Vodou. Em outras palavras, embora exista o uso de bonecos, seja como ofertas ou representações de Lwas, ou até mesmo como representações de uma determinada pessoa, não há relato do uso destes para práticas maléficas.
O mito do zumbi também foi outro que foi alimentado por histórias criadas pelos norte-americanos que ocupavam o Haiti no início do século XX e que pouco entendiam sobre o Vodou. Embora exista, dentro dos saberes e histórias do Vodou haitiano, a feitura de zumbis, ou seja, de pessoas que são retiradas do túmulo após a suposta morte para serem transformadas em escravizados de um feiticeiro, tal prática pertence a uma marginalidade dentro do Vodou, ao campo dos Bokors, feiticeiros de aluguel. Além disso, há apenas um suposto caso registrado dessa prática, que é o famoso caso de Clairvius Narcise, homem dado como morto e enterrado, que foi encontrado vivo anos depois pela sua família.
Em verdade, o Vodou haitiano é alvo de diversas fantasias que se desviam de sua liturgia e práticas, que ao invés de ser uma coleção de feitiços maléficos e de magia sinistra, trata da comunicação entre pessoa e espíritos.
Voodoo da Lousiana ou Vodou da Lousiana
O Vodou ou Voodoo (termo amplamente rejeitado pela comunidade voduísta internacional, mas que está sendo aqui utilizado para facilitar a compreensão) da Lousiana nasce da influência que a região sofreu pelas colonizações espanhola e francesa, antes de ser vendida aos Estados Unidos da América. Quando estourou a Revolução Haitiana em 1791, muitos colonos franceses fugiram de São Domingos levando seus escravizados. No caminho passaram por Cuba e se fixaram na colônia francesa da Lousiana. Estes escravizados levaram consigo o Vodou e o espalharam pelo Caribe e pela então região da colônia da Louisiana. Estes encontros, provavelmente, formaram o que viria a ser conhecido como Vodou da Lousiana.
Porém, foi com Marie Laveau (1801-1881), uma mulher preta ou de ascendência originária que viveu em Nova Orleans, que o Vodou da Lousiana ganhou seus contornos definitivos. Os registros contam que Marie Laveau era uma muito católica e que ajudava os necessitados com frequência, além de poder ser vista comumente na igreja. Para além disso, ela teria aprendido segredos do Vodou e colocado um pouco de sua própria personalidade e gostos nele, misturando-o com seu catolicismo. Sua fama foi tamanha que ela se tornou praticamente sinônimo de Vodou em Nova Orleans e acabou ditando o que seria o Vodou a partir de então.
Referências e bibliografia recomendada
- Regis, E. Vodou Haitiano: Serviço aos Lwas. Editora Daemon. 2022.
- Regis, E. Ensaios sobre o Vodou Haitiano. Editora Daemon. 2022.
- La Croix, S. & Trindade, D. F. Vodu, Voodoo e Hoodoo: a magia do Caribe e o Império de Marie Laveau. Editora Arole. 2021.
- Lamenfo, M. V. Z. K. Serving the Spirits. 2011
Conheça e adquira também
- A Sorte do Coveiro, Daemon Editora (1 janeiro 2018)
- Voudon Gnosticism, Destiny Books (9 julho 2024)
- The Voudon Gnostic Workbook: Expanded Edition, Weiser Books; Expanded ed. edição (1 julho 2007)
- Vodou Haitiano: Espirito, Mito E Realidade, Pallas; 1ª edição (16 setembro 2011)
- Vodou – Os Segredos De Legba, Clube de Autores (31 dezembro 2022)
- Vodu – Fenômenos psíquicos da Jamaica, Madras; 1ª edição (1 janeiro 2004)
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